Biologia das abelhas-nativas-sem-ferrão: diferentes espécies, diferentes estratégias

As abelhas-nativas-sem-ferrão (ANSF) compartilham características que permitem reuni-las na tribo Meliponini, mas apresentam uma diversidade de comportamentos e estratégias de sobrevivência que nem sempre recebe a devida atenção.

É comum encontrarmos explicações sobre sua biologia formuladas como se todas as espécies apresentassem o mesmo comportamento. Entretanto, aspectos relacionados à reprodução, à organização das colônias, à alimentação e às interações ecológicas podem variar consideravelmente.

Conhecer essas diferenças é fundamental para compreender a diversidade das ANSF e evitar que informações obtidas em estudos de determinadas espécies sejam generalizadas indevidamente.

A reprodução não segue um único modelo

Em uma colônia típica de abelhas-nativas-sem-ferrão, uma rainha fecundada é responsável pela maior parte da postura de ovos, enquanto as operárias desempenham diferentes atividades relacionadas à manutenção do ninho.

Essa organização, entretanto, não descreve todas as situações observadas na natureza.

Estudos revelam diferenças na produção de rainhas e machos, na substituição das rainhas, na participação reprodutiva das operárias e até no número de rainhas que podem coexistir em uma colônia.

A tese de doutorado de Denise de Araújo Alves, defendida em 2010 na Universidade de São Paulo, investigou essas questões em espécies do gênero Melipona, com ênfase em pequenas populações de Melipona scutellaris.

Os resultados demonstraram que a organização reprodutiva dessas abelhas pode ser mais complexa do que sugerem as descrições tradicionais.

Com quantos machos uma rainha acasala?

Uma distinção importante entre as abelhas-nativas-sem-ferrão e outros grupos de abelhas sociais diz respeito ao acasalamento das rainhas.

Nas ANSF, o padrão descrito é o acasalamento com um único macho, geralmente durante um voo nupcial. Esse comportamento é denominado monoandria.

Isso contrasta com o comportamento das rainhas de Apis mellifera, que normalmente acasalam com vários machos.

É importante, porém, distinguir o número de machos com os quais uma rainha acasala da diversidade de indivíduos que podem participar da reprodução dentro de uma colônia.

A existência de uma rainha fecundada não significa que todos os machos produzidos sejam necessariamente seus descendentes, nem que a colônia permaneça sempre sob o comando reprodutivo da mesma rainha.

Operárias também podem produzir machos

Nas abelhas, os machos normalmente se desenvolvem a partir de ovos não fecundados, enquanto as fêmeas se desenvolvem de ovos fecundados, embora existam situações particulares relacionadas à determinação genética do sexo.

Em diversas espécies de ANSF, operárias também podem produzir ovos não fecundados que originam machos.

Na pesquisa de Denise Alves, foram identificados machos descendentes tanto das rainhas quanto de operárias poedeiras.

Um resultado especialmente interessante foi que 80% dos machos filhos de operárias analisados eram descendentes de operárias produzidas pela rainha anteriormente substituída.

Essas operárias permaneceram reprodutivamente ativas mesmo após a substituição da rainha-mãe, utilizando os recursos e o trabalho de uma nova geração de indivíduos com os quais apresentavam menor parentesco.

Esse fenômeno evidencia que as relações reprodutivas dentro de uma colônia podem envolver conflitos de interesses, além da cooperação que caracteriza a vida social dessas abelhas.

Parasitismo social: rainhas que assumem outras colônias

O parasitismo social ocorre quando determinados indivíduos exploram os recursos ou o trabalho de outros indivíduos sociais para obter benefícios reprodutivos.

Uma das descobertas apresentadas por Denise Alves foi a ocorrência de parasitismo social intraespecífico em Melipona scutellaris.

Em 25% das colônias órfãs estudadas, rainhas provenientes de outros ninhos próximos conseguiram estabelecer-se e iniciar a postura de ovos.

Essas rainhas não haviam sido produzidas pelas colônias que passaram a ocupar.

O fenômeno demonstra que a substituição de uma rainha nem sempre ocorre exclusivamente pela seleção de uma rainha virgem produzida no próprio ninho.

É importante distinguir esse comportamento de outras formas de exploração, como a cleptobiose (pilhagem) praticada por espécies do gênero Lestrimelitta, conhecidas por invadir ninhos de outras abelhas exclusivamente para roubar alimentos e materiais de construção.

No caso estudado por Denise Alves, o parasitismo envolveu rainhas da mesma espécie que passaram a se reproduzir em colônias não natais.

Uma colônia pode ter mais de uma rainha?

Embora a presença de uma única rainha fisogástrica seja a condição mais comum nas ANSF, existem exceções.

A tese de Denise Alves descreveu uma colônia de Melipona quadrifasciata na qual coexistiam oito rainhas fisogástricas.

As análises genéticas indicaram que todas eram irmãs completas, contrariando a hipótese de que alguma delas tivesse se originado de outra colônia.

A coexistência de múltiplas rainhas reprodutivas é denominada poliginia.

Esse exemplo mostra que a presença de várias rainhas não deve ser interpretada automaticamente como uma anormalidade ou como evidência de invasão por indivíduos externos.

Ao mesmo tempo, uma ocorrência documentada em determinada espécie não autoriza concluir que o fenômeno seja frequente em todas as ANSF.

Diversidade genética e viabilidade das populações

Outro aspecto importante da reprodução está relacionado à diversidade genética das populações.

Denise Alves comparou populações manejadas de Melipona scutellaris em Pernambuco, onde a espécie ocorre naturalmente, e em São Paulo, onde uma população havia sido estabelecida a partir de apenas duas colônias.

Após sucessivas multiplicações, a população paulista chegou a 55 colônias.

Entretanto, apresentou menor diversidade alélica e maior frequência de machos diploides em comparação com a população estudada em Pernambuco.

A produção de machos diploides está relacionada ao sistema de determinação sexual das abelhas e pode representar um problema para a eficiência reprodutiva e a viabilidade das populações.

Isso ocorre porque os machos diploides geralmente são estéreis ou devorados pelas operárias ainda no estágio larval, gerando perda de recursos da colônia e favorecendo o enfraquecimento ou o colapso do meliponário devido ao alto grau de endogamia (consanguinidade).

Esse resultado demonstra que o aumento do número de colônias não significa necessariamente um aumento proporcional da diversidade genética.

Para a meliponicultura, trata-se de uma observação importante: a multiplicação de colônias deve considerar não apenas sua quantidade, mas também a origem e a diversidade genética da população manejada.

Abelhas e plantas: generalistas ou especialistas?

As relações entre abelhas-nativas-sem-ferrão e plantas também apresentam particularidades que não devem ser generalizadas.

Muitas espécies de ANSF são consideradas generalistas na utilização de recursos florais, pois coletam néctar e pólen de diferentes espécies vegetais.

Entretanto, generalismo não significa ausência de preferências.

Uma espécie pode utilizar numerosas plantas e, ainda assim, visitar determinadas famílias botânicas com maior frequência, em função das características florais, da disponibilidade de recursos, da época do ano e de sua própria biologia.

Uma revisão global publicada em 2023 sobre a visitação floral das ANSF destacou diferenças nas associações entre abelhas e plantas, incluindo preferências por determinados grupos vegetais.

Entre os gêneros estudados, Melipona e Scaptotrigona apresentam registros de utilização preferencial de certas famílias botânicas em diferentes ambientes.

Preferência floral não é o mesmo que especialização obrigatória

Uma abelha que visita frequentemente flores de determinada família vegetal não é necessariamente especialista.

Para caracterizar uma relação de especialização, é preciso avaliar a amplitude dos recursos utilizados, a disponibilidade de alternativas e a dependência efetiva daquela fonte floral.

Também é necessário distinguir a coleta de néctar da coleta de pólen, pois uma mesma espécie pode apresentar padrões diferentes para esses recursos.

Além disso, uma operária pode demonstrar fidelidade temporária a determinada fonte floral, enquanto a colônia, considerada em conjunto, utiliza muitas espécies de plantas.

Portanto, a classificação de uma ANSF como generalista ou especialista depende da escala e dos critérios utilizados na investigação.

Visitar flores não significa necessariamente polinizá-las

Outra distinção importante envolve a relação entre visitação floral e polinização.

Uma abelha pode visitar uma flor para coletar néctar ou pólen sem necessariamente realizar a transferência de grãos de pólen entre estruturas reprodutivas de maneira eficiente.

A efetividade da polinização depende de fatores como o tamanho e o comportamento da abelha, a morfologia floral e a compatibilidade entre as características da planta e do visitante.

Por isso, a simples observação de uma ANSF em determinada flor não permite afirmar que ela seja uma polinizadora efetiva daquela espécie vegetal.

Estudos específicos são necessários para demonstrar essa contribuição.

O que essas diferenças significam para a meliponicultura?

A diversidade biológica das ANSF tem consequências práticas para a criação e o manejo.

Conhecimentos obtidos com uma espécie podem contribuir para compreender outras, mas não devem ser aplicados automaticamente sem considerar suas particularidades.

Diferenças na produção de rainhas, no comportamento das operárias, na substituição de rainhas, na dinâmica reprodutiva e na utilização de recursos florais podem influenciar as respostas das colônias às intervenções de manejo.

Da mesma forma, a seleção de plantas para enriquecimento ambiental ou alimentação das abelhas deve considerar a diversidade das espécies criadas e das populações silvestres presentes na região.

Um meliponário com diferentes espécies de ANSF não reúne necessariamente colônias com necessidades idênticas.

A observação cuidadosa e o conhecimento científico devem orientar as decisões, evitando transformar comportamentos particulares em regras universais.

Conhecer a diversidade é reconhecer suas diferenças

A biologia das abelhas-nativas-sem-ferrão continua sendo objeto de numerosas investigações.

Estudos sobre reprodução, genética, comportamento e ecologia demonstram que mesmo espécies próximas podem apresentar estratégias distintas.

As pesquisas de Denise Alves constituem um exemplo importante de como descobertas científicas podem modificar interpretações anteriormente aceitas sobre a organização social e reprodutiva dessas abelhas.

Da mesma forma, os estudos sobre interações entre abelhas e plantas mostram que a utilização dos recursos florais envolve relações mais complexas do que a simples distinção entre espécies generalistas e especialistas.

Compreender as ANSF exige reconhecer tanto as características que compartilham quanto as diferenças que tornam cada espécie biologicamente singular.


Referências e leituras complementares

  1. ALVES, D. A. (2010). Estratégias reprodutivas em Melipona, com ênfase em pequenas populações de Melipona scutellaris (Apidae, Meliponini). Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002123624

  2. ENGEL, M. S.; RASMUSSEN, C.; AYALA, R.; OLIVEIRA, F. F. (2023). Stingless bee classification and biology (Hymenoptera, Apidae): a review, with an updated key to genera and subgenera. ZooKeys, 1172, 239–312. Disponível em: https://doi.org/10.3897/zookeys.1172.104944

  3. HEARD, T. A. (1999). The role of stingless bees in crop pollination. Annual Review of Entomology, 44, 183–206. Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev.ento.44.1.183

  4. ROUBIK, D. W. (2023). Stingless bee (Apidae: Apinae: Meliponini) ecology. Annual Review of Entomology, 68, 231–256. Disponível em: https://doi.org/10.1146/annurev-ento-120120-103938

  5. GRÜTER, C.; KULU, E. (2023). Stingless bee floral visitation in the global tropics and subtropics. Global Ecology and Conservation, 43, e02454. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.gecco.2023.e02454

  6. BROWN, M. J. F. et al. (2022). The queens of the stingless bees: from egg to adult. Insectes Sociaux, 69, 117–131. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00040-022-00894-0


Sobre este artigo

Elaboração: Associação de Meliponicultores do Distrito Federal – AMe-DF.

Apoio editorial: ChatGPT (OpenAI), utilizado na pesquisa bibliográfica preliminar, organização e redação do conteúdo, sob supervisão humana.

Última atualização: outubro de 2026.

Artigo de divulgação científica fundamentado nas referências indicadas. Os resultados apresentados para espécies e populações específicas não devem ser generalizados para todos os meliponíneos.